O jogo do empurra
Martha Medeiros
Se tem um jogo que a gente aprende cedo é o jogo do empurra. O garotinho diz que não teve culpa de o gato se afogar, que o gato é que estava muito perto da piscina, e a babá diz que também não teve culpa, ela deixou o garotinho sozinho no jardim para abrir a porta (tudo ela, tudo ela!), e a mãe do garoto diz que também não teve culpa, tem que trabalhar, confiava na babá, e o pai do garoto, que trouxe o gato pra casa, pergunta como é que ele ia saber que o gato era suicida? Pobre do gato, vamos todos dormir, ninguém tem culpa.
Tenho escutado o mais recente disco de Jack Johnson, um americano ainda não muito conhecido mas que faz um som totalmente antistress, e tem uma música que fala justamente sobre isso, sobre esse jogo do “não tenho nada a ver com isso” que a gente joga quando discute a violência urbana. Um adolescente diz que apertou o gatilho, mas não tem culpa, a sociedade é que sempre o agrediu desde que nasceu, e o pai do adolescente diz que também não tem culpa, não foi ele que ensinou o filho a usar uma arma, o garoto aprendeu essas coisas vendo televisão, e o dono da emissora de tevê diz que ele também não pode ser culpado, não foi ele que inventou a violência, ele apenas deixa as câmeras apontadas para o que o povo quer ver, e quem faz a trilha sonora deste programa diz que é tudo entretenimento, não vai deixar a coisa estourar em cima dele.
É uma letra que poderíamos nós mesmos continuar a compor. O povo não tem culpa porque é vítima. O governo não tem culpa porque a população sonega impostos e não há dinheiro em caixa para investir em segurança. Deus tampouco tem culpa, não está envolvido, é apenas um observador, a gente que vá se entender com o demônio que existe dentro de cada um, este sim tem contas a acertar.
A música do Jack Johnson termina dizendo que a culpa é minha e é sua, que não há inocente nesta história, que todas as nossas mãozinhas estão sujas de sangue. Muito fácil dizer “não fui eu, não me culpe”. Alguma culpa a gente há de ter: ou por ter sido conivente com algo que estava errado, ou por ter negado ajuda a quem precisava, ou por não ter denunciado um crime, ou por ter usado a violência como mote de uma campanha publicitária, ou por ter dado em revólver de brinquedo a um filho, ou por ter incentivado alguém a revidar, ou simplesmente por ter se abstido: tô fora!
Temos todos alguma coisa a ver com isso. Alguma coisa a ver com o que nos acontece em volta. Está todo mundo dentro.
Domingo, 26 de outubro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.